Quando falamos de leitura em contextos bilíngues, é comum que a conversa gire em torno de níveis de proficiência, listas de livros por faixa etária e metas linguísticas bem definidas. Esses elementos são importantes, mas não dão conta do todo. Existe um aspecto central que raramente é discutido — e que impacta diretamente o sucesso acadêmico e o engajamento dos estudantes.
Leitura inclusiva não é simplificar textos. É ampliar o acesso ao sentido.
Em escolas bilíngues, muitos estudantes compreendem conceitos complexos, fazem conexões sofisticadas e demonstram alto potencial cognitivo, mas continuam em processo de desenvolvimento da língua de instrução. Outros são estudantes neurodivergentes, que processam a linguagem de formas diversas, com ritmos, estratégias e necessidades diferentes.
O ponto crítico — e pouco falado — é que, nesses contextos, a leitura não pode ser tratada apenas como uma habilidade linguística. Ela precisa ser compreendida como uma experiência pedagógica planejada, intencional e acessível.
O equívoco mais comum: confundir dificuldade linguística com dificuldade cognitiva
Um dos erros mais recorrentes em contextos bilíngues é interpretar a dificuldade de leitura em uma segunda língua como falta de compreensão, interesse ou capacidade. Na prática, o que muitos estudantes precisam não é de textos mais fáceis, mas de mais caminhos para acessar o texto.
Isso inclui:
- ativação de conhecimentos prévios;
- uso estratégico de imagens, mapas visuais e organizadores gráficos;
- leitura mediada e compartilhada;
- escuta ativa (audiobooks, leitura em voz alta);
- oportunidades de escolha e autonomia;
- tempo e ritmo ajustados às necessidades do estudante.
Essas estratégias não “diminuem o nível” da leitura. Pelo contrário, preservam a complexidade cognitiva enquanto ampliam o acesso linguístico.
Estratégias de leitura não são transferíveis automaticamente entre línguas
Outro ponto que quase ninguém explicita é que práticas eficazes de leitura em português não podem ser simplesmente replicadas no inglês — e vice-versa. Cada língua carrega estruturas, ritmos, convenções textuais e demandas cognitivas próprias.
Leitura inclusiva em contextos bilíngues exige:
- intencionalidade na escolha do gênero textual;
- clareza sobre o objetivo da leitura (compreensão global, inferência, análise, ampliação de vocabulário);
- apoio linguístico planejado, durante e após a leitura;
- alinhamento entre Language, Content e objetivos pedagógicos.
Sem esse cuidado, o risco é transformar a leitura em uma barreira — quando ela deveria ser uma ponte.
DUA, bilinguismo e leitura: uma combinação necessária
Quando incorporamos os princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) à leitura em contextos bilíngues, a pergunta deixa de ser:
“Esse aluno consegue ler esse texto?”
E passa a ser:
“De quantas formas diferentes esse aluno pode acessar, compreender e se engajar com esse texto?”
Isso implica oferecer múltiplos meios de representação, expressão e engajamento, respeitando perfis linguísticos, cognitivos e emocionais diversos. Leitura passa a ser também escuta, imagem, antecipação, interação, diálogo e construção de sentido — e não apenas decodificação.
Leitura inclusiva como compromisso institucional
Por fim, leitura inclusiva em contextos bilíngues não pode depender apenas do esforço individual do professor. Ela precisa estar presente:
- no currículo;
- nos materiais didáticos;
- nos planejamentos de aula;
- na formação continuada da equipe;
- na comunicação com as famílias.
Escolas que assumem esse compromisso não apenas ampliam o acesso ao conteúdo, mas fortalecem o pertencimento, a autonomia e o prazer pela leitura — em mais de uma língua.
Ser uma escola bilíngue inclusiva não é garantir que todos leiam o mesmo texto da mesma forma.
É garantir que todos tenham acesso ao conhecimento, ao sentido e à experiência da leitura.