Milena Mignossi – Educação Bilíngue & Inclusiva

O que ninguém te conta sobre leitura inclusiva em contextos bilíngues

Quando falamos de leitura em contextos bilíngues, é comum que a conversa gire em torno de níveis de proficiência, listas de livros por faixa etária e metas linguísticas bem definidas. Esses elementos são importantes, mas não dão conta do todo. Existe um aspecto central que raramente é discutido — e que impacta diretamente o sucesso acadêmico e o engajamento dos estudantes.

Leitura inclusiva não é simplificar textos. É ampliar o acesso ao sentido.

Em escolas bilíngues, muitos estudantes compreendem conceitos complexos, fazem conexões sofisticadas e demonstram alto potencial cognitivo, mas continuam em processo de desenvolvimento da língua de instrução. Outros são estudantes neurodivergentes, que processam a linguagem de formas diversas, com ritmos, estratégias e necessidades diferentes.

O ponto crítico — e pouco falado — é que, nesses contextos, a leitura não pode ser tratada apenas como uma habilidade linguística. Ela precisa ser compreendida como uma experiência pedagógica planejada, intencional e acessível.

O equívoco mais comum: confundir dificuldade linguística com dificuldade cognitiva

Um dos erros mais recorrentes em contextos bilíngues é interpretar a dificuldade de leitura em uma segunda língua como falta de compreensão, interesse ou capacidade. Na prática, o que muitos estudantes precisam não é de textos mais fáceis, mas de mais caminhos para acessar o texto.

Isso inclui:

  • ativação de conhecimentos prévios;
  • uso estratégico de imagens, mapas visuais e organizadores gráficos;
  • leitura mediada e compartilhada;
  • escuta ativa (audiobooks, leitura em voz alta);
  • oportunidades de escolha e autonomia;
  • tempo e ritmo ajustados às necessidades do estudante.

Essas estratégias não “diminuem o nível” da leitura. Pelo contrário, preservam a complexidade cognitiva enquanto ampliam o acesso linguístico.

Estratégias de leitura não são transferíveis automaticamente entre línguas

Outro ponto que quase ninguém explicita é que práticas eficazes de leitura em português não podem ser simplesmente replicadas no inglês — e vice-versa. Cada língua carrega estruturas, ritmos, convenções textuais e demandas cognitivas próprias.

Leitura inclusiva em contextos bilíngues exige:

  • intencionalidade na escolha do gênero textual;
  • clareza sobre o objetivo da leitura (compreensão global, inferência, análise, ampliação de vocabulário);
  • apoio linguístico planejado, durante e após a leitura;
  • alinhamento entre Language, Content e objetivos pedagógicos.

Sem esse cuidado, o risco é transformar a leitura em uma barreira — quando ela deveria ser uma ponte.

DUA, bilinguismo e leitura: uma combinação necessária

Quando incorporamos os princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) à leitura em contextos bilíngues, a pergunta deixa de ser:

“Esse aluno consegue ler esse texto?”

E passa a ser:

“De quantas formas diferentes esse aluno pode acessar, compreender e se engajar com esse texto?”

Isso implica oferecer múltiplos meios de representação, expressão e engajamento, respeitando perfis linguísticos, cognitivos e emocionais diversos. Leitura passa a ser também escuta, imagem, antecipação, interação, diálogo e construção de sentido — e não apenas decodificação.

Leitura inclusiva como compromisso institucional

Por fim, leitura inclusiva em contextos bilíngues não pode depender apenas do esforço individual do professor. Ela precisa estar presente:

  • no currículo;
  • nos materiais didáticos;
  • nos planejamentos de aula;
  • na formação continuada da equipe;
  • na comunicação com as famílias.

Escolas que assumem esse compromisso não apenas ampliam o acesso ao conteúdo, mas fortalecem o pertencimento, a autonomia e o prazer pela leitura — em mais de uma língua.

Ser uma escola bilíngue inclusiva não é garantir que todos leiam o mesmo texto da mesma forma.
É garantir que todos tenham acesso ao conhecimento, ao sentido e à experiência da leitura.

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